Para pergunta na lata, meia resposta basta

Para pergunta na lata

Para pergunta na lata, meia resposta basta
Raquel Pivetta

Eu estava entrando no elevador quando tudo começou:

— Menina, como você emagreceu! Aconteceu algo?

— Muito sexo.

No ponto eletrônico:

— Vem cá, você é vesga?

— De vesga em quando, a depender do ângulo.

Na reunião do trabalho, depois de um telefonema do marido.

— Você é muito submissa nessa sua relação!

— É recíproco. E a gente é feliz assim.

— Olha só, se você passar a se impor, vai ser mais feliz ainda!

— Sim. Mas aí ele vai ser triste.

No coffee break:

— Hummm, vocês dois trabalhando na mesma empresa… Não é arriscado? E se um dia ela fechar as portas?

— Aí a gente abre uma nova, juntos.

— Vocês se conheceram aqui no trabalho?

— Não. 

— Como foi que se conheceram?

— Foi tipo… Na fila do desemprego.

— Você está com quantos anos?

— Vou fazer 20. Entrei na empresa em 2004.

No pré-natal:

— Primeira gestação?

— Não. Tenho uma filha de quinze.

— Do mesmo pai?

— Sim. Só para manter a tradição.

No espelho do banheiro:

— Seu cabelo não fica branco?

— Cabelo ruivo vai ficando é loiro com o tempo.

— E você vai deixar?

— Problema sério ficar loira, hein?

No almoço de confraternização:

— Por que você demorou quinze anos para ter outro filho?

— Estava vendo se o casamento ia dar certo.

— Vocês dois com olho claro, na certa o do menino saiu claro também, né?

— Mais ou menos. O dele é “esverdeando”.

No estacionamento, indo pro carro:

— Observando melhor, você é a legítima falsa magra.

— Ufa, escapei de ser a magra falsa. 

— Falsa eu não diria. Mas magra de ruim…

— Saiba que ganhei uns quilinhos nos últimos anos. 

— Ah é? Como é que foi isso?

— É que estou me tornando uma pessoa boa. 

— [risos…] Essa foi boa!

Eu sempre tinha uma resposta pronta pra tudo. Então permaneci serena, esperando a próxima indagação, a última do dia, a derradeira. Não demorou até que chegasse:

— Posso te perguntar uma coisa?

Nossa, eu não estava preparada para uma pergunta dessa, é sério. Pela primeira vez, me vi sem palavras, e o silêncio tomou conta da situação.

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