Não ligue pra mim
Raquel Pivetta
Quem nunca foi, em algum momento inoportuno, incomodado pelas chamadas irritantes de telemarketing? Pensando nisso, proponho aqui uma reflexão: e se essas empresas nos dessem uma folga?
Nainha, que trabalha na casa da Patrícia, jamais teria que largar as panelas no fogo para ouvir ofertas de banda larga e TV por assinatura. Sofia, a ávida leitora, não quebraria sua concentração para atender um moço preocupado com a vela do seu filtro. Carol, no sagrado momento da amamentação, seria poupada desse tremendo inconveniente. Hugo, amante do sono, poderia dormir até mais tarde no sábado, sem receber essas ligações fora de hora. O pedreiro Edmilson poderia aproveitar aquele breve cochilo depois do almoço sem ser incomodado. Dona Lourdes, aposentada, pararia de ser importunada com ofertas de empréstimo consignado.
E olha só, os xingamentos iam dar uma trégua. Metade do ódio e da indignação também desapareceriam do nosso planeta. E as armadilhas das operadoras de telefonia? Bem, essas tramoias precisariam ser repensadas (até as ligações dos presídios estão mais convincentes). As empresas teriam que se virar nos trinta para cativar os potenciais clientes, talvez discutindo estratégias de marketing mais eficazes e menos intrusivas.
A única coisa chata, na minha opinião, seria parar de ouvir as histórias engraçadas que sempre surgem em torno desse assunto (mas, poxa vida, acho que a gente sobrevive):
“— Alô? Eu gostaria de estar falando com o proprietário do imóvel. — Moça, não tem ninguém aqui com esse nome”.
“— É da residência do senhor fulano de tal? — Sim. — O senhor acaba de ser contemplado para estar fazendo um curso completo de língua estrangeira, bastando apenas pagar pela taxa do material. — Ah, então hoje é o seu dia de sorte, pois vou doar a você todo esse prêmio”.
“— Falo com o Senhor Jorge Luiz Silveira Pinto? — Sim, sou eu mesmo. — A partir de amanhã, o Senhor estará sendo promovido para a categoria de cliente ouro no nosso banco. — Só uma pergunta: quem ganha salário mínimo pode?”
Brincadeiras à parte, um mundo sem ligações de telemarketing seria um verdadeiro paraíso. Se você é um dos que sonham com isso, bem-vindo ao time dos “Não me perturbe”. Por enquanto, o choro é livre e os palavrões são permitidos (depois que desligar o telefone, pelamor!). E, quando você começar a se conformar com a perturbação, pense no segundo, mas não menos importante, benefício: um mundo sem gerundismo. Já imaginou?
Veja também: Modéstia à parte
Uma resposta
O Raquel,
Parabéns muito boa. É isso mesmo que nos acontece quando somos vítimas desse sistema. Mas é a vida. Só que você tem a capacidade de satirizar o assunto.
Abraços.
Francisco