Elisa fugia à regra

Elisa fugia à regra

Elisa fugia à regra

por Raquel Pivetta

Segundo dados do Covitel 2023 (Inquérito Telefônico de Fatores de Risco para Doenças Crônicas Não Transmissíveis em Tempos de Pandemia), mais da metade da população brasileira está com excesso de peso. Um aumento de quase 10% em relação a 2022. A pesquisa revelou que 68% dos adultos entre 45 e 54 anos estão com sobrepeso ou obesidade.

Mas, como toda regra tem sua exceção, lá estava Elisa. Ela fugia à regra. Cresceu ouvindo a expressão “é magra de ruim”.  De fato, Elisa não contribuía nem de leve para essa estatística.

Quase cinquentona, saúde perfeita, vinte anos de casada e com o mesmo peso de quando tinha dezoito anos — alguma coisa estava errada. Todo mundo querendo emagrecer, e ela ali, beirando a menopausa e magra, sem fazer nenhum esforço.

Estava tudo bem demais. Alguma coisa estava para acontecer. Ia ter um AVC. Perder o emprego. Quebrar uma perna. Alguma estavam lhe preparando. E não demoraria.

Seu marido entrou no quarto e comentou:

— Tenho notado que seu corpo está diferente.

Ela sentiu, com certo alívio, que sua hora chegava. Então era isso. Tinha entrado na menopausa e disparado a engordar. Bom, era melhor do que um AVC.

— Como assim, diferente?

— Sei lá, parece mais…

— Pode falar, Rodrigo!

Estava tomada por uma volúpia de sofrimento. Queria ser destruída pelos detalhes.

— Está mais cheinha.

Ela deixou escapar um sorriso no canto da boca. Perfeito. Estava ficando gorda e flácida, enquanto ele estava esbelto e mais charmoso com os cabelos grisalhos. Rodrigo continuou:

— Não tinha como não observar. Você sempre foi tão magrinha…

— Há quanto tempo vem observando?

— Já faz uns dois meses.

— Acha que estou embarangando?

— Eu não disse isso. E, independente de qualquer coisa, você é uma mulher bonita.

— Rodrigo, não tente me consolar.

— Só acho que você precisa se cuidar.

Sim, sim. A boca. Teria que fechar a boca, para não ficar obesa. Cortar o açúcar, a farinha, as frituras, comer só duas colheres de sopa de arroz no almoço, largar mão de jantar. Sua vida seria um inferno dali pra frente.

Elisa se deleitava com essa situação, a ponto de resistir demais para fazer o exame de gravidez. Já vinha sentindo enjoo havia mais ou menos três meses. A barriga estava começando a aparecer. Não tinha mais como postergar. Foi ao banheiro e fez o teste de farmácia. Deu positivo, claro. Voltou para o quarto, com uma cara de desapontamento (feliz com o resultado, mas frustrada pelo fato de o ganho de peso ter a ver com a gravidez).

— Que foi? — perguntou Rodrigo.

— Nada, não foi nada.

— Escuta, Elisa, você não pode negligenciar. Tem que procurar um endócrino e, quem sabe, fazer um tratamento com reposição hormonal…  — disse Rodrigo, tentando animar. — Eu sinto muito, mas isso acontece com toda mulher. Menopausa não é o fim do mundo.

— Olha aqui, não precisa me dizer o que fazer. Eu sei me cuidar. Agora me dá licença, que eu quero ficar sozinha.

Ela chamou a Rosa, a moça que trabalhava na sua casa, e pediu que preparasse um café bem forte. Era a primeira vez que ela tomava café de tardezinha. A Rosa achou estranho:

— Problema, dona Elisa?

Ela não se conteve. Com os olhos cheios de lágrimas, respondeu:

— Ele acabou de me dizer uma coisa terrível! Finalmente!

— Eu pensei que a senhora fosse ficar feliz com a gravidez! — comentou Rosa, entregando que já sabia da novidade.

Ali era o fim. Elisa não tinha escolha, a não ser aceitar a reviravolta em forma de milagre.

Veja também: É nascente?

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Respostas de 2

  1. Oi Raquel!

    Uma crônica da vida cotidiana de pessoas que vivem da melhor maneira que a vida permite e isso você retratou muito bem, Mais uma vez o seu talento sobressair ainda mais quando você retrata o cotidiano de forma simples, porém rico em detalhes que poucos percebem no decorrer da própria existência. Parabéns.

    1. Olá, Francisco! Agradeço de coração suas palavras generosas. Fico contente em saber que minha crônica conseguiu capturar a essência da vida cotidiana. Muito obrigada!

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