A isonomia da ilusão

ENEM 2025

A ISONOMIA DA ILUSÃO

Raquel  Pivetta

Segundo o Ministro da Educação, tudo está “sob controle”. Uma tranquilidade tão convincente que quase me esqueci de que estávamos falando de um vazamento de questões do ENEM — essa coisinha boba, irrelevante, que não influencia absolutamente nada na vida de jovens que estudaram três, quatro, cinco anos seguidos sem ver a luz do sol.

Afinal, para que drama?
Cancelaram “apenas” três questões. Três. Um número tão pequeno que, se dependesse das autoridades, talvez nem merecesse ser contado — como se pontos fossem migalhas e não o que separa um sonho de uma lista de espera eterna.

Chamam isso de isonomia.
Ah, a poesia das palavras mal usadas…

Anular as questões é, segundo eles, a solução perfeita: iguala todos. Mas é como tirar os pontos de quem acertou honestamente e presentear com a mesma nota quem nem chegou perto. Uma matemática linda, redondinha, aprovada com louvor no mundo encantado do MEC.

Enquanto isso, do lado de cá da vida real, centenas de jovens que suaram mais do que o ministro já suou em qualquer coisa que não seja o próprio terno respiram fundo à espera de empatia — aquela entidade mística que alguns governantes pronunciam, mas jamais sentiram.

E não para por aí.
Como desgraça pouca é bobagem, agora chega o episódio bônus: a grande imprensa resolveu dar palco ao rapaz que comprou as questões. O herói do domingo, convidado de honra do “limpa-barra” nacional. Porque, claro, o país precisa ouvir o lado dele. O estudante honesto, não; esse já está chorando no banho há três dias. Mas o comprador do gabarito merece um especial com trilha dramática e câmera lenta.

E aí me pergunto — e pergunto alto:

Por que não chamar, então, os candidatos que estudam há anos, aqueles que praticamente gabaritaram Matemática e Naturezas, e que agora veem seus acertos anulados?

Esses, sim, têm uma história pra contar. História de esforço, suor, renúncia, noites em claro… não o enredo de quem decidiu fazer a prova com “atalho”.

Mas esses jovens não rendem audiência, né?

Honestidade nunca deu ibope.

É realmente fascinante: quando o bandido é conveniente, a indignação vira pauta facultativa; quando não é, vira campanha. Coerência, no caso, está fora da grade.

Enquanto isso, os estudantes… ah, os estudantes.

Esses seguem acreditando que esforço importa, que mérito vale, que o país recompensa quem batalha. Acreditam porque precisam acreditar — não por ingenuidade, mas por sobrevivência. E aí vem o Estado, solene, anunciar que o erro institucional será pago por quem não errou nada.

Parabéns aos envolvidos.

O Brasil merecia um exame sério. Os jovens mereciam respeito. As famílias mereciam paz.

Mas, em vez disso, ganharam essa coreografia de absurdo: o MEC apagando incêndio com gasolina, o INEP tentando equilibrar pratos que já caíram, e a TV escolhendo o lado errado com a mesma naturalidade com que escolhe o ângulo da câmera.

No fim, a única isonomia que existe é esta: todos nós temos o direito igual de ficar indignados.

E, pelo jeito, vamos exercê-lo por muito tempo.

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